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segunda-feira, janeiro 26, 2009

QUEM DISSE QUE A HUMILDADE E A VERDADE NÃO EXISTEM MAIS?

Como sacerdote, viajo todo o Brasil atendendo pessoas que solicitam a interferência dos Orixás em suas vidas, a fim de ajudarem a solucionar vários problemas em setores variados. E em cada estado por onde passo, sempre que o tempo favorece dado aos exercícios do sacerdócio, tento visitar algumas casas nas quais sou convidado para algum evento religioso.

Estando em Belo Horizonte, fui convidado pelo Alabê Davi de Odé, a visitar a casa de seu zelador, Kafunanguê, e qual foi a surpresa que Minas Gerais guardava para mim...!

Sábado, dia 25 de Janeiro de 2009, me dirigi a essa casa de Obaluayê, situada no Bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte, Orixá que amo em especial, a fim de assistir a um festejo em homenagem a Oxossi, pela passagem de seu dia. Ao chegar nesta casa, já me deparei com a primeira surpresa: humildade, e não ostentação. Por ali fiquei conversando com o ogã Davi e apreciando a energia que emanava daquele templo.

Como sacerdote, não pude deixar de observar que as energias ali eram de muita paz, amor, carinho dedicação, algo que faz bem a todos, somente de pisar em seu terreno. Observei a distribuição das Insabas sagradas, algo que se deu com o maior respeito, uma vez que aqueles que se dedicavam a tal ato, não conversavam nada sobre o mundo, mas sim, elevavam seus pensamentos aos céus em busca das energias dos Orixás a fim de manterem a positividade dentro do Ilê.

Observei que mesmo aqueles como o Ogã Davi, que saíam a fim de arejar um pouco a mente, se preocupavam em manter uma sintonia com o ato que ali seria realizado, evitando assim brincadeiras e qualquer outra coisa que não fosse coesa e coerente com os rituais, coisa que muito pouco se vê.

Ao se aproximar à hora do evento religioso, mais uma surpresa: as filhas e filhos de santo se dedicavam em formarem suas correntes, sem conversa, sem risos, apenas com seus rostos estampando a mais pura fé e amor em seus Orixás.

Finalmente os atabaques anunciaram o início do festejo. Observei que o zelador adentrou em seu salão, e com muita fé, sem mesmo desviar seu olhar para outro local que não fosse o padê de exú que ali havia sido depositado com o mesmo amor e dedicação por alguns filhos de santo.

Então após os ritos iniciais, começou o festejo tão aguardado por todos nós que ali estávamos. E nesse momento, revela-se a maior e feliz surpresa para qualquer sacerdote: vi caboclos se incorporarem de forma exata, sem maiores delongas e com tanta firmeza que suas energias podiam ser sentidas por quem quer que ali estivesse.

Após os caboclos serem vestidos e aparados pela Mãe Ekedi que ali estava a sua disposição, retornaram para a sala com as comidas a serem oferecidas na belíssima mesa que fora preparada para os caboclos. Inclusive essa mãe Ekedi que, diga-se de passagem, é de Yemanjá, me chamou a atenção dado a sua humildade e carinho que estampavam em seu rosto.

Com as comidas arriadas e as rezas de praxe proferidas, vi caboclos dançarem e até mesmo se dedicarem a descarregar todos que ali estavam, com tanto amor que era em alguns momentos, difícil até mesmo de conter a emoção.

Houve um fato em particular que me chamou a atenção: os caboclos não bebiam em exagero, apenas tomavam goles de Jurema, servida em coités e nada de excesso de bebidas, apenas o suficiente para que pudessem absorver a força que ali estava naquela bebida sagrada.

Em dado momento, o Caboclo Lua Nova subiu e incorporam-se os boiadeiros, afinal casa de santo não faz um samba de Caboclo sem essas entidades. Aí então tive o privilégio, a honra de conhecer o Boiadeiro do zelador, chama-se “Boiadeiro Leão do Norte”. Quanta humildade e sabedoria pude observar em suas palavras e atitudes. Pude conversar com ele mais de uma hora corrida e vi que ali estava uma entidade que apesar da imensa sabedoria, tem somente uma preocupação: honrar o nome de nosso Pai Oxalá. Nem mesmo esse boiadeiro bebia em excesso, e sua humildade era tão grande que a tudo dizia com suas palavras que assim podiam ser traduzidas: “honras e glórias, somente Deus e os Orixás merecem”.

Em dado momento nossa conversa adentrou para os caminhos da imensa preocupação que muitas vezes consome a mente e o corpo das pessoas, e ele me surpreendeu com uma frase que por mais que viva nunca esquecerei: “Aconselho a todos a serem como eu: nunca me desesperei com nada, pois sei que depois de uma noite vem o dia e depois do dia sempre tem a noite”, ou seja: por mais que os problemas existam, a vida continua e se tivermos fé em Deus tudo se resolve.

Após o término da sessão, pude finalmente entabular conversação com o zelador da casa, meu irmão Cafunanguê e vi que sua humildade transpassa os de muitos de nós. Vi uma pessoa que somente se preocupa em servir o Orixá, em buscar uma solução para os problemas daqueles que recorrem a sua interseção junto aos nossos Santos para o auxilio de seus problemas. Notei que ele, Kafunanguê, não se reportou a quem quer que fosse em momento algum, com soberba e orgulho, mas sim, com a humildade que deve ter um verdadeiro sacerdote.

Conversamos até altas horas da noite, e cada assunto que abordávamos, ele sempre dizia de seu amor aos Orixás, horas com palavras, horas com gestos que demonstravam tanto amor quanto a muito tempo não via dentro de um ser humano.

Outro fator que me chamou e muito a atenção, foi que os ogã da casa, não beberam nada em momento algum a não ser água, nem mesmo a Jurema dos Caboclos eles provaram.

Relato esses fatos queridos, não no intuito de jogar confetes em quer que seja, pois os que me conhecem, sabem que jamais me preocupo em falar seja lá o que for para agradar a quem quer que seja ao contrário: falo o que sinto e penso não me importando com outra coisa que não seja a verdade, e também sabem que minha única preocupação é com o nome de minha religião e de meus Orixás. Se relato esses fatos é porque tão somente desejo mostrar o que há muito tempo venho proclamando:

Uma casa de santo se faz com seriedade, com amor e com muita humildade acima de tudo. Fui iniciado nos preceitos dos Orixás, sendo ensinado que por mais que tenhamos anos e anos de santo, nunca seremos mais que servidores de nossos orixás. Aprendi que um zelador vive para servir tanto seu Orixá, como os de seus filhos de santo, que somos hierarquicamente superiores a nossos filhos, mas que perto de seus orixás, somos como uma formiga perto de um elefante, afinal são seres que governam a natureza e com certeza nos conhecem muitíssimo bem.

Parabenizo aqui ao meu irmão Kafunanguê por sua casa e rogo à Olorum e a todos os Orixás, para que possa essa casa se erguer cada vez mais e assim, dar seguimento as raízes deixadas para nós pelos africanos que aqui plantaram seu axé.

Parabéns meu irmão, e que Obaluayê te cubra de bênçãos e prosperidade,e que sua vida possa ser tão prospera quanto os grãos de areia em uma praia.

Parabéns Alabê Davi! Parabéns por sua conduta e a de seus irmãos e filhos e que sua casa possa sentir toda a prosperidade de Odé meu pai.

ZAMBI NO AKUATESSÁ!

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com