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sexta-feira, julho 13, 2012

SERIA OMOLOKÔ, UMBANDA?


Muitas pessoas ainda por falta de conhecimento, afirmam que Omolokô seria uma Umbanda, onde se cultuam Orixá. Porém, este culto é sim uma nação de Candomblé, e como tal, tem seus preceitos próprios e devemos respeitar seus Templos, pois que, são oriundos da mesma Mãe África, de onde se originaram todas as demais nações que conhecemos.

Segundo pesquisadores, o nome Omolokô, pode estar ligado ao povo de Loko, que por sua vez, fazia parte de uma nação maior, os Manes. Este era um povo que vivia em Serra Leoa, e tinha como governante o Rei Farma, tendo sido este, o Rei mais poderoso de todos os Reis Mane.

A Sede de seu governo tinha o nome de Lakoja e ficava à margem do Rio Mitombo, sendo este, um afluente do Rio Benue que era um afluente do Rio Níger, sendo este o maior da África, berço de muitas civilizações, inclusive dos Yorúbas. Assim sendo, Lakoja era vizinha do Grande Reino Yorubá.

Outros nomes pelos quais o povo Loko era conhecido eram: Lagos, Lândogo e Sosso. O primeiro registro do nome Loko data de 1606, sendo que na mesma data consta ainda o registro deste mesmo povo com o nome de Loguro.

Pesquisadores afirmam que esse povo viveu até 1917 ao Oriente de Temnis de Scarcies, e que a tribo Loko era dividida em outras, e que o filho do Rei Farma, teria sido batizado com o nome Cristão de D. Felipe, o que prova a sincretização do cristianismo com as religiões africanas, antes mesmo das mesmas se enraizarem no Brasil.

Isto serve para desmistificar o fato de, a Nação Angola e outras falarem o Português e até mesmo terem cantigas com essa língua em seus rituais. Para seguidores de Nações diferentes, e sem o devido preparo, a Angola seria “uma Umbanda melhorada” isso mostra o quanto não conhecem da história do povo que cultuam. Temos neste relato, a comprovação de que o português é muito mais antigo em alguns povos africanos do que se pode imaginar.

Para os historiadores e pesquisadores, os Lokôs, teriam feito parte de um grupo étnico denominado, Mane, e todos os povos que compunham essa Nação teriam vindo para o Brasil, na condição de escravos. E como ocorreu como os Jêjes, Nagôs e outros, criaram a sua religião que foi chamada de Omolokô.

Os Mane eram um povo guerreiro e consta em registros históricos que usavam flechas envenenadas e arcos curtos o que causava um impacto ainda mais mortal em suas vítimas. Outras armas usadas por eles eram as espadas curtas e largas, azagaias (lança curta e delgada, que devido a seu pouco peso era muito usada como arma poderosa, tanto para caça como para a guerra), além de dardos envenenados e facas que traziam amarrados em baixo do braço.

Como usavam flechas envenenadas, eram comuns acidentes com as mesmas envolvendo membros de sua tribo, assim para não morrerem com o veneno impregnado em suas armas, eles carregavam sempre consigo uma bolsinha com o antídoto.

Guerreiros e destemidos, tinham por hábito avisar seus inimigos do ataque iminente em sua aldeia. E para tal, usavam palhas. Conforme o número de palhas era a quantidade de dias que faltava para a invasão. Eram ainda um povo de riqueza, tanto que ostentavam em seus braços e pernas manilhos de ouro e prata. 

Constantemente se aliavam aos brancos que invadiam a África a fim de comercializarem os negros capturados em batalhas, porém culminaram em também serem comercializados para o “novo mundo”.

Dentro de seus rituais religiosos estavam os assentamentos de seus deuses e ídolos de madeira em figura tanto de seres humanos como de animais. Ao saírem para a guerra, prestavam homenagens a seus deuses para que pudessem sair vitoriosos. Mas, se acontecesse de, perderem a batalha açoitavam-nos até a exaustão como forma de punição, pois não os teriam ajudado na guerra.

Se saíssem vencedores, entregavam oferendas de comida e bebidas como gratidão por terem vencido mais uma guerra e assim terem expandido seu reino. Tratavam suas mulheres como cabondos. Uma peculiaridade dessa tribo é que sua principal identificação era a falta de dois dentes frontais de sua boca.

Como religião, o Omolokô se instalou na cidade do Rio de janeiro, nos idos do Século XIX, se organizando ali, de forma completa e se enraizando por outros Estados do Brasil. Graças ao conhecimento que seus praticantes trouxeram da África, e, que foi passado de forma oral para seus descendentes, ainda no Brasil colônia.

Porém, como todas as demais nações, esta sofreu influência de outras vertentes africanas, afinal, dentro das senzalas, os negros se amontoavam, e aquele que diz que sua Nação não possui influência alguma, com certeza, não conhece a história de nosso País. Naquela época, a predominância no Brasil eram os cultos aos Orixás Nagôs e aos Inkisis dos Bantus, e assim os Lokôs sofreram a influência direta dessas duas ramificações em seus cultos.

Obviamente que mantiveram todo o arquétipo de seus rituais, mas, como a influência fora demasiada, culminaram por introduzir alguns ritos de outras Nações, mas, com uma interpretação mais contemporânea.

Isto fez com que a Nação Omolokô se destacasse das demais, que mantinham em seus cultos a predominância de sua terra natal. Outro fator muito curioso dentro do Omolokô, é que não possui a iniciação como nos demais Candomblés, onde se tem umbigueira, akodidê, pois que lá os Orixás não são iniciados.

Para muitos, a palavra Omolokô, se traduz como: filho da gameleira branca, ou: filhos de Lokô, um grande Orixá muito cultuado dentro dos Candomblés de Kêtu. O que  faz com que  muitos confundam seus ritos e assim o chamem de Umbanda de Omolokô, é que teria sido ela, a primeira Nação a aceitar os caboclos e demais mensageiros dos Orixás, isso devido talvez, a convivência desse povo com os índios que existiam em nosso país na época da colônia.

Mas, de forma alguma essa abrangência diminui sua imagem como Religião, porque tem suas raízes no mesmo povo que fundou as demais matrizes, e assim sendo, possui sim, o direito de se denominar Nação de candomblé, o que pode desagradar a muitos despreparados, que por arrogância, pregam aos quatro ventos que somente os de sua casa são feitos de verdade. 

 Não devemos de forma alguma, subestimar seus preceitos, nem mesmo seus conhecimentos, pois são de muita profundidade e quando tivermos todos, um convívio mais harmonioso, e buscarmos um entendimento maior entre as casas, veremos que na verdade, somos todos uma só Nação, uma só Tribo e que pertencemos ao mesmo Rei: Olorúm.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Odé Mutaloiá.                                          

Presidente do Conselho Religioso da UNESCAP