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sexta-feira, novembro 02, 2012

O DIA DE TODOS OS SANTOS NO CANDOMBLÉ



Praticamente todas as casas de Candomblé, principalmente as de Angola, cultuam o “dia de todos os Santos”, o que era feito também em algumas casas de outras nações  mais antigas na Bahia, onde seus zeladores e zeladoras faziam parte de alguma comunidade católica.

Neste dia, acendemos nossos Orixás, colocamos água em suas quartinhas e batemos paó, pedindo a misericórdia para nós e nossas vidas. Afinal, estamos nos aproximando do dia de finados, e devemos respeitar os mortos, bem como, dar-lhes o culto necessário.

Mas, como surgiu esse dia de todos os santos?

A enciclopédia católica nos ensina que este dia, é na verdade uma festa em homenagem a todos os santos sejam eles conhecidos ou desconhecidos. Seu início real, segundo historiadores, vem do segundo século, onde cristãos tiveram a ideia de honrar todos os que haviam sido martirizados em nome e honra de Jesus Cristo e de sua fé.

Como deduziam que eles estivessem no Céu junto com Cristo, rezavam a eles pedindo que interagissem em suas vidas, pedindo a Deus por eles, afastando todo o mal que por ventura pudessem encontrar, afinal, eram dias difíceis, e a perseguição era ainda muito grande. Suplicavam que seus mártires olhassem por eles, que os ajudassem a suplantar todas as angústias, dores e sofrimentos que pudessem encontrar em seus caminhos, afinal pregar os ensinamentos de Cristo, já tinha causado a morte de muitos antecessores.

Porém, o Dia de Todos os Santos, somente foi oficializado, passando a ter seu culto regular em 13 de Maio de 609 ou 610 D.C. quando o Papa Bonifácio IV dedicou o Templo Romano de Todos os Deuses à Maria e a todos os mártires de sua Igreja. Segundo Markale, “os deuses romanos cederam lugar aos santos da religião vitoriosa”. Isso porque, durante as ditas “guerras santas” a igreja católica dizimou boa parte dos seguidores das religiões que eles consideravam pagãs e como sabemos quem vence impõe até mesmo seu credo.

Mas, a data de 1 de Novembro, foi introduzida, quando o Papa Gregório III, dedicou uma capela em Roma a todos os santos, e determinou que sua homenagem ocorresse neste dia. Não se tem uma certeza na história do porque dessa decisão, alguns estudiosos, acreditam que tenha sido devido a um feriado pagão que ainda era comum na Inglaterra. E como lá foi introduzido esse culto a Todos os Santos a fim de acabar com o feriado pagão, acreditam alguns historiadores que essa decisão foi a mola que impulsionou o Papa a determinar esse dia comemorativo.

Mas, se o Dia de Todos os Santos é de origem católica, por que no Candomblé guardamos o mesmo?

Ocorre que segundo nos ensina a liturgia denominada Dia de Todos os Santos,  essa data era na verdade uma cerimonia Celta, na qual comemoravam a passagem de ano daquele povo. Marca o Samhain, o fim do verão e o começo do inverno, ou seja: o ano novo Celta.

Para alguns escritores, boa parte da tradição do Halloween, Dia de Todos os Santos, e do dia dos fiéis defuntos, está associada ao Samhain. Os Celtas e demais povos antigos, acreditavam que no Samhain, as almas dos mortos voltavam até suas casas a fim de visitarem seus entes queridos e também vinham em busca de alimentos e do calor das fogueiras a fim de espantarem o frio.

Para vários autores, não existem provas de que o Samahin seja relacionado ao culto aos mortos, segundo eles, essa crença somente se popularizou durante o século XIX. Alguns relatos antigos atribuem ao Samahin, a época em que tribos conquistadas pagavam tributos a seus conquistadores.

Segundo relatos, durante toda a cristianização da Grã-Bretanha, o Samahin se mantinha como festividade popular e ativa dentre os povos Celtas. Então, a igreja britânica, a fim de desviar o foco da atenção comemorativa pagã, resolveu introduzir uma comemoração cristã em seu calendário na mesma data da festividade dos Celtas.

Para os estudiosos, é possível que a atitude da igreja britânica, tenha sido a grande precursora da popularização da festa de Todos os Santos. Era costume dos irlandeses, reservar o primeiro dia de cada mês para as comemorações, e, como 1º de Novembro era justamente a festividade dos Celtas, a igreja viu o momento oportuno de realizar o seu festejo nesse dia. Então, finalmente em 835 D.C. o Papa Gregório IV declarou o dia primeiro de Novembro, como data universal do Dia de Todos os Santos.

À exemplo dos Celtas, os africanos também tinham suas datas comemorativas, e claro que em seu calendário, estava o dia de louvar a Olorúm e seus Ministros, seus antepassados. Ao fixarem sua religião no Brasil, introduziram várias datas e eventos em seus ritos.

Com o crescimento da Religião dos Orixás, alguns zeladores viram a oportunidade de saudarem todos os Orixás conhecidos e também todos os que não eram de conhecimento brasileiro, e passaram a fazer isso justamente no dia de todos os santos.

É importante que nós, dentro de nossas casas, mantenhamos a mesma cultura de nossos ancestrais, que não maculemos suas festividades nem mesmo seus preceitos, por mais que nos pareçam estranhos, pois estaremos assim, mantendo nossas raízes e assim estaremos em paz com esses que nos precederam em nossa fé.

Louvemos, pois, nossos Orixás no Dia de Todos os Santos, acendamos nossas velas, coloquemos água em suas quartinhas, pois com certeza, em nada isso nos prejudicará, ao contrário, estaremos mostrando a nossos antepassados, que por mais que o mundo evolua, suas crendices, seus rituais estão preservados e sua memória mais viva em nossos corações.

Sérgio Silveira Tatetú N'Inkisi Odé Mutaloiá, Presidente do Conselho Religoso da UNESCAP.